Como a música ficou grátis: uma história sobre s̶e̶x̶o̶,̶ ̶d̶r̶o̶g̶a̶s̶ ̶e̶ ̶r̶o̶c̶k̶ ̶n̶’̶r̶o̶l̶l̶ hackers e revolução tecnológica

em Dicas e novidades.

“Abordar navios mercantes
Invadir, pilhar, tomar o que é nosso
Pirataria nas ondas do rádio
Havia alguma coisa errada com o rei”
Rádio Pirata, RPM

E sim, havia muita coisa errada com o rei. Mas, graças aos “Robin Hood” de plantão, hoje conseguimos ouvir as músicas que queremos na hora e no lugar em que bem entendemos, sem comprarmos um CD para gostarmos de uma, duas faixas no máximo.

Cerca de 30 anos atrás, nossos pais e, talvez você mesmo, usavam o Walkman ou o Diskman. Precisavam de muitas pilhas, CDs, fitas K7 e, em certos casos, uma caneta por perto.

Então, como tudo isso mudou tão rápido?

Stephen Witt, jornalista americano que se considerava o maior pirata de todos os tempos, concorrendo até com Barba Negra, começou a se perguntar sobre a origem dos arquivos de gigantesco acervo musical. A curiosidade era tanta que ele escreveu um livro sobre Como a música ficou grátis, publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

Piratas ou heróis?

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Segundo o autor, tudo começou com Dell Glover, o “paciente zero” da pirataria digital; a primeira pessoa a vazar álbuns de artistas como Eminem, Jay-Z, U2 e tantos outros, na web. DE GRAÇA.

Glover trabalhava em uma fábrica de CDs da Universal Music, nos Estados Unidos. Talvez ele tivesse motivos para cantarolava todo dia algo como I can’t get no satisfaction, dos Stones. O fato é que de tanto pensar em uma forma de tirar os discos de lá, um dia ele conseguiu, levou-os para casa, digitalizou o material e disponibilizou para um grupo de piratas digitais, o Rabid Neurosis, ou em uma tradução livre, Neurose Raivosa.

Simultaneamente à história de Glover, outro personagem também contribuiu com a pirataria na indústria fonográfica: Karlheinz Brandenburg, engenheiro alemão que facilitou o compartilhamento de músicas ao desenvolver, em conjunto com alguns colegas, o MP3, tecnologia capaz de comprimir o áudio em um arquivo 12 vezes menor do que o de um CD, com pouca perda de qualidade.

Em 2009 mais de 20 mil álbuns, a maioria da Universal, foram vazados na web, mas não podemos esquecer que toda ação tem uma reação. Dell Glover havia comprado uma briga com uma gigante da indústria fonográfica e, apesar de ter conquistado o coração dos internautas e amantes da música, ele passou 3 meses na prisão, principalmente por ser considerado o maior membro do grupo que compartilhava os arquivos. Achamos que Glover cantou muito Gonna make a jailbreak – porque só AC/DC o entenderia naquele momento.

Como revolucionaram nossa forma de consumir música?

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A revolução não estaria completa sem ele: Shawn Fanning, o criador do Napster. O cara só tinha 18 anos quando decidiu abandonar a faculdade e lançar o software em 1999. Dell Glover pode ter disponibilizado as músicas e Brandenburg ter criado o MP3, mas foi ele quem simplificou o download dos arquivos para os internautas.

No início, a pirataria era limitada aos universitários que tinham conhecimentos técnicos, além disso, as faixas não eram encontradas tão facilmente – algo que o incomodava bastante. Foi aí que Fanning pensou na solução; um serviço de compartilhamento de arquivos peer-to-peer que conectasse os usuários a um servidor centralizado onde pudessem trocar arquivos MP3 entre si.

A popularidade do software foi enorme, ainda mais quando as velocidades de download só aumentavam e as músicas eram baixadas ainda mais rápido, às vezes em menos tempo do que a sua própria duração.

“Em essência, era praticamente um streaming. O Napster não era só um serviço de compartilhamento de arquivos, era a jukebox digital infinita. E era gratuito”, conta Stephen Witt em seu livro.

Óbvio que deu certo, mas… os problemas por infração de direitos autorais eram muitos e, para se livrar das inúmeras brigas na Justiça, o criador encerrou as atividades e vendeu os direitos do software para a Best Buy, uma das maiores redes de eletroeletrônicos dos Estados Unidos.

Mas essa não foi a morte da pirataria, muito menos das músicas em MP3. Steve Jobs, colocando ainda mais lenha na fogueira, mas dessa vez de uma forma mais inteligente, lançou o iPod, mas o produto só foi apresentado para o público depois do lançamento do iTunes, loja que permite a compra de músicas no digital.

Além disso, depois do Napster, outros programas similares surgiram: eMule, Kazaa, Ares… E o Youtube ganhou força como uma nova opção para quem quisesse ouvir música sem fazer o download ou pagar por ela – e para ter seus 15 minutos de fama também.

Sobre streaming, playlists e facilidade

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Estaria o MP3 se aposentando? Com a ascensão dos serviços de streaming, o formato pode estar com os dias contados. O Spotify, por exemplo, que é o mais popular do segmento, utiliza o Ogg, alternativa de código aberto.

Por falar em streaming, sabia que ele diminuiu consideravelmente a pirataria dentro da música? Segundo os dados publicados em Como a música ficou grátis, em 2013 as receitas da indústria fonográfica americana chegaram ao nível mais baixo dos últimos 30 anos. Os clientes do Spotify paravam de piratear quase que por completo, o que era ótimo, mas também deixavam de comprar álbuns.

Faça um teste: quantos CDs você comprou em 2015? Provavelmente poucos, só aqueles que de fato queria. Convenhamos, é mais fácil abrir o aplicativo e pesquisar pela música do que achar um CD – e mesmo quando não sabemos o que ouvir, as plataformas resolvem com playlists temáticas: para relaxar, trabalhar – e até acordar mais disposto.

No ano passado, o Spotify, em conjunto com a Universidade de Cambridge, descobriu quais são as 20 melhores músicas para acordar e criou uma playlist para quem fica mal-humorado ao despertar. Em primeiro lugar está Viva la Vida, do Coldplay. De acordo com o estudo, os acordes, o ritmo da canção e a própria letra influenciam positivamente no comportamento do ouvinte. Em 2015, a empresa também descobriu que nossa maturidade musical acontece por volta dos 35 anos.

E, “competindo” com as listas do Spotify, Deezer e outros serviços de streaming, também criamos uma playlist, a LocaBillboard. Selecionamos 25 músicas para quem programa acordar inspirado. Dê o play aqui! ;)