O poder de ser questionado pelos mais velhos

em Revista Locaweb.

UMA FIGURA PATERNA TROUXE RESPOSTAS PARA MOMENTOS DECISIVOS: A CRIAÇÃO DE UM NEGÓCIO TECNOLÓGICO PIONEIRO, SUA SOBREVIVÊNCIA AO ESTOURO DA BOLHA E SUA LIDERANÇA EM SERVIÇOS DE INTERNET NO BRASIL  

(Por Bianca Bellucci)

A ideia de criar a Locaweb surgiu na sala da casa dos fundadores e primos Claudio Gora e Gilberto Mautner. Após o jantar, eles se reuniram para saber o que fazer já que o Plano A naufragara. Em um agora distante 1997, a ideia era conquistar a internet com o Intermoda, um marketplace voltado para o setor de moda. O problema é que o projeto não foi muito bem-aceito por seu público-alvo (e dada a proliferação e sucesso desse tipo de serviço atualmente, pode-se dizer que eles estavam, pelo menos, 20 anos à frente de seu tempo).

Foi aí que Michel Gora, pai de Claudio e tio de Gilberto, soltou a pergunta: “Por que não expandirmos nossa visão e fazermos sites para todo mundo?”. Com o novo caminho em mente, Gilberto começou a pesquisar fora do País o que poderia se encaixar a tal ideia. Ele acabou descobrindo nos Estados Unidos uma prática chamada hosting, a famosa hospedagem de sites que no Brasil ainda era uma tecnologia inexplorada. Assim, a Locaweb nasceu em 1998 e tornou-se líder isolada no mercado de domínios “.com.br”, segundo o relatório Hostmapper.

De lá para cá, a companhia conquistou mais de 275 mil consumidores. Hoje hospeda 350 mil sites em seus 25 mil servidores e possui Sephora, Yamaha e Cinemark em sua cartela de clientes. Também não se pode esquecer que a Locaweb foi a primeira no
País a ter seu próprio data center – algo que você vai entender melhor mais para a frente. Mas até conquistar esse patamar muita água rolou e é essa trajetória que você confere a seguir.

Para chegar até aqui

Os primos não têm praticamente nenhuma aptidão em comum, embora tenham sido criados como irmãos. Gilberto perdeu os pais quando era muito novo. Michel, que era primo de sua mãe, adotou o garoto (e também sua irmã) quando ele ainda tinha 13 anos. Nessa mesma época, Gilberto se apaixonou por informática e programação, quando ganhou seu primeiro computador doméstico, um TK85. Aliás, o presente de aniversário foi recebido de malgrado por sua irmã, que esperava que ele pedisse um Atari. Já Claudio sempre pendeu para o lado da criatividade e do marketing. “Acompanhei todas as gerações de computadores do Gilberto e
até brincava de tentar programar, mas não saía nada”, lembra.

No fatídico 1997, Gilberto estava nos Estados Unidos insatisfeito por ser um trabalhador braçal na Andersen Consulting (atual Accenture, empresa de tecnologia). Mesmo sendo formado em engenharia eletrônica, passou seis meses apenas instalando programas em computadores. Na ocasião, Gilberto passou um tempo morando em Palo Alto, na Califórnia. Foi lá, em determinado momento, que ele testemunhou o nascimento de diversas empresas de tecnologia, como a Netscape. Aquela atmosfera o contagiou. Enquanto isso, no Brasil, Claudio pulava de setor em setor na empresa têxtil do pai sem encontrar nada que conseguisse fisgá-lo de fato.

Mas o rumo da vida profi ssional dos dois iria mudar assim que Gilberto botasse os pés novamente em São Paulo. Já no Brasil, sugeriu unir sua parte técnica com o conhecimento de criação e confecção do primo-irmão para criar um negócio digital. Mesmo sem nunca ter manjado muito de informática, Claudio não hesitou e, com um aporte de US$ 30 mil de Michel, nasceu o Intermoda.

Programado em ASP e Access, o projeto fracassou quatro meses após seu start. Como dito no começo da reportagem, o  Marketplace era muito avançado para a época e praticamente não recebia visitas. A questão é que, assim como em uma startup atual, tinham uma competente e corajosa equipe, mas faltava um elemento sagaz para indicar o caminho das pedras. Foi quando Michel entrou de vez no jogo.

O destino do Intermoda

Ainda é possível acessar o site do antecessor da Locaweb, o Intermoda (www.intermoda.com.br), e vê-lo exatamente como foi idealizado há 19 anos. Isso porque os primos Claudio Gora e Gilberto Mautner mantiveram a página online como se fosse
uma superstição. 

Com um layout bem anos 1990 e explicações do que é um site, a página pode até parecer fora de moda, mas serve como um museu para lembrar como começou a história da Locaweb. “Obviamente a gente nem olha para o que tem lá. Só está no ar porque está no ar”, diz Claudio. Então, que ele permaneça online pelo bem da empresa.

Intermoda

Grey Hair

“A gente precisava de um cabelo branco aqui”, brinca Claudio. “A segurança e a experiência que o Michel tinha seriam o sufi ciente para nos encorajar a tomar as atitudes necessárias.” Foi por causa dele, inclusive, que o Intermoda e depois a Locaweb deram seus primeiros passos. Isso porque o Michel abriu um espaço em sua fábrica têxtil para que os negócios começassem.

Entre a mesa de corte e a sala de máquinas de costura, ficava a mesa de Claudio e Gilberto com seus respectivos computadores. Além dos dois, um estagiário completava a equipe. “Nosso gasto era pouco. Trabalhávamos de graça, só tínhamos um funcionário e não existia a necessidade de pagar aluguel”, lembra Gilberto. “Sem contar que demoramos cerca de um ano e meio para começar a
tirar alguma coisa, pois o Claudio tomou a decisão de investir tudo o que sobrava em marketing.”

Com o objetivo de deixar a marca conhecida no mercado, a Locaweb começou a aparecer em anúncios de revistas e outdoors com o dinheiro do lucro. Já os fundadores garantiram um salário significativo em meados de 2000, e só porque um novo funcionário queria receber mais do que Gilberto e Claudio ganhavam. “Então, nos demos um aumento para pelo menos fi carmos de igual para igual com o cara”, recorda Gilberto.

Vale lembrar que um dos motivos para que a Locaweb alcançasse o sucesso foi sua democratização de preços. Desde o começo com a ideia de disponibilizar para todo mundo um serviço considerado caro, os primos criaram pacotes que muitos usariam pouco e poucos usariam muito. Um conceito que segue até hoje. “Dessa forma, conseguimos dividir a proporção de custos e podemos cobrar barato por um serviço bom”, afirma Claudio. Atualmente, é possível encontrar plano de hospedagem que começa em R$ 14,90 por mês.

Outro detalhe que fez com que a empresa crescesse sem complicações é que os fundadores, principalmente Michel, permaneceram com os pés no chão e não caíram no golpe da bolha da internet – algo que condenou algumas promissoras empresas.

BOOM!!!

O estouro da bolha da internet ocorreu em 2000. O termo “bolha” se refere ao superaquecimento do mercado e faz alusão ao crescimento, mas também ao fato de que ela pode explodir a qualquer momento. Na época, o universo virtual não parava
de inflar, principalmente por causa de investidores que apareciam com somas irreais para injetar em empresas, prometendo que a web seria o futuro e que o lucro seria incalculável.

“Foi um período muito irracional. O dinheiro vinha muito fácil e acabou arruinando empresas boas. Muitas estavam no trilho certo, mas na hora em que apareceu um cara com milhões de dólares falando para fazer um monte de maluquices, a companhia
acabou arrasada porque perdeu a visão de sua saúde fi nanceira”, diz Gilberto.

Na Locaweb, a história não foi diferente. Investidores apareceram e disseram que, para crescer, era necessário se endividar. Michel achou um absurdo e afirmou que não precisava desse empurrão, a empresa já gerava caixa e podia se virar sozinha. “Se endividar no Brasil a níveis estratosféricos como os que estavam sendo propostos, nem aqui nem na China”, brinca Gilberto ao lembrar da situação.

Adepta da “escola do Michel” – que prega a ideologia de que a única economia que existe é a do lucro –, a Locaweb trilhou seu caminho, e na contramão do cenário, teve um crescimento exponencial por causa da bendita bolha. É que o boom da internet fez com que a imprensa só falasse sobre tal assunto, atraindo os olhares de quem não tinha ideia do que era a tecnologia. “O estouro foi muito favorável para nós porque mostrou para as pequenas empresas que também poderiam estar online”, afirma Claudio.

No começo de 2000, a companhia tinha cerca de 20 funcionários. No final do ano, já eram mais de cem. Como consequência, a Locaweb teve de mudar duas vezes de escritório e profi ssionalizar o negócio, assim, foram criadas lideranças em cada departamento. “Sempre crescemos com os pés no chão. Tínhamos medo de partir para um espaço maior e não poder pagar o aluguel. Preferíamos sempre ter aquela segurança de pegar um lugar menor e mudar depois lá para a frente do que fazer algo muito grande”, comenta Claudio.

Com o impulso da bolha da internet, a Locaweb explodiu e não parou mais de crescer. Sempre pensando em inovar, a empresa deixou apenas de ter serviços de hospedagem para oferecer um leque de produtos com o que há de melhor para seu público. Hoje, a companhia trabalha com plataformas para criar sites, e-commerces, e-mail marketing, streamings, webinars e pesquisas, além de contar com produtos de infraestrutura robusta (IaaS e PaaS), cloud, VoIP, entre outros.

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Mais do que Hospedagem

O peso da Locaweb é tanto no mercado que existem ex-funcionários que até acabaram sendo contratados por empresas norte-americanas e europeias. Isso porque muito do que aprenderam sobre computação em nuvem, hospedagem de sites, data center e muito mais foi graças à companhia. E falando em data center, um fato interessante fez com que a Locaweb se destacasse ainda mais.

O data center pode ser considerado como o sistema nervoso central de uma empresa. Ele é um ambiente projetado com a finalidade de abrigar os servidores e bancos de dados e processar grande quantidade de informação. É nele que se encontram
equipamentos de processamento e armazenamento de dados, bem como sistemas de ativos de rede, como switches, roteadores e outros.

Em 2006, o conteúdo da Locaweb estava baseado na Embratel – na época, única empresa no Brasil que tinha um data center e era capaz de atender à demanda de mais de 600 servidores da companhia de Gilberto e Claudio. Porém, com uma mudança de acionista, a empresa decidiu que era uma boa triplicar os custos do serviço. Sem pensar duas vezes, Michel jogou a pergunta: “Por que não fazermos um data center próprio?”.

Gilberto achou que aquela era uma ideia de louco e garantiu que não tinha capacidade para criar um data center. Sua área era outra. Aquele era um mundo completamente diferente. Já Michel, insistiu na ideia. “Ele disse que apenas tínhamos que estudar, afinal, nossa vida inteira sempre fomos atrás de conhecimento que não sabíamos”, lembra Gilberto.

O “grey hair” abraçou a ideia e visitou data centers dentro e fora do País, trouxe o que cada um tinha de melhor e acabou montando o seu. Em seis meses não tinha mais um único computador da Locaweb na Embratel. “Agora tínhamos esse cartão
de visitas: o data center mais avançado da América do Sul na época”, diz Gilberto. Tão avançado que ao longo dos anos passou a abrigar a infraestrutura de grandes clientes, como Mondelez, Posto Ipiranga, e Lojas Marisa. Hoje, tais empresas são atendidas
pela divisão de negócios especializada em segmento corporativo Locaweb Corp.

Hoje, três salas abrigam o data center da Locaweb. Ao todo são 700 m² refrigerados 24 horas por dia. Nos corredores a temperatura é mantida em 18 graus, o que consome boa parte dos 2,5 MW por hora que a empresa gasta. Se a energia elétrica cai,
10 geradores movidos a diesel entram em ação automaticamente e aguentam até 36 horas sem reabastecimento.

Daqui pra frente 

Em 1998, quando a Locaweb surgiu, os domínios “.com.br” não somavam nem 500 mil. Segundo os dados da Registro.br (empresa que monitora sites que usam “.br”), atualmente são mais de 3,7 milhões. Considerando que a empresa dos primos tem hoje 350 mil sites .br hospedados em sua infraestrutura e mais 730 mil domínios, é possível cravar que ela detém a liderança do mercado brasileiro com mais de 20% de share, de acordo com mapeamento da Hostmapper. “Hoje, o mercado de hospedagem conta com 455 empresas operando no País. Não é um comércio de poucos e está aberto para competidores estrangeiros. Mas ainda assim temos uma boa representação”, diz Gilberto.

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Além da força não só em hospedagens, mas em serviços de internet no geral, a Locaweb é conhecida por sua infraestrutura. Localizado na Vila Andrade, na cidade de São Paulo, o ambiente descontraído lembra a sede do Google. Com academia, salão de jogos, centro de estética e pufes espalhados pelos corredores, a área de trabalho é composta de baias grudadas umas nas outras e permite que os funcionários de diferentes setores e posições interajam entre si. Isso até lembra o começo da história, quando os fundadores com suas diferentes aptidões discutiam na sala de casa.

Todo esse espaço criativo e inspirador faz com que a Locaweb consiga atingir sua missão com mais facilidade. Gilberto garante que não sabe como a empresa estará daqui a 10 ou 20 anos, mas seu objetivo sempre será ajudar negócios a nascer e prosperar com a tecnologia. Por meio da nuvem, da internet ou de qualquer outra técnica que apareça, o fato é que a Locaweb e seus fundadores vão continuar trabalhando para que a tecnologia seja levada com qualidade para empresas de todos os portes. E, claro, caso precisem de um norte, é bem provável que Michel esteja disposto a ajudá-los a encontrar a resposta.

 

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